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Inteligência artificial no trabalho: velocidade sem presença

A máquina nunca se cansa. É exatamente isso que o filósofo Byung-Chul Han escreve em Sociedade do Cansaço — e é exatamente aí que mora o problema das organizações hoje.

Han observa que a máquina não pode fazer pausas. O computador, apesar de todo o seu desempenho computacional, é incapaz de hesitar. Quando transferimos para a inteligência artificial nas empresas o modelo de como o trabalho deveria funcionar, não estamos apenas automatizando tarefas. Estamos internalizando o ritmo da máquina como padrão humano.

E o corpo humano está respondendo a esse padrão à sua maneira.


A promessa que acelerou o cansaço

O Work Trend Index da Microsoft e do LinkedIn revelou que 75% dos trabalhadores do conhecimento já usam IA no trabalho. Ao mesmo tempo, 68% dizem não ter tempo suficiente para se concentrar, e 46% relatam se sentir esgotados.

Os números não mentem — mas também não se explicam sozinhos. A inteligência artificial no trabalho chegou com a promessa de devolver tempo às pessoas, de eliminar o esforço repetitivo, de criar espaço para o que é humano. O que está acontecendo, na prática, é quase o oposto.

Uma pesquisa conduzida pela Escola de Negócios Haas da Universidade da Califórnia em Berkeley acompanhou cerca de 200 funcionários de uma empresa de tecnologia. Os primeiros achados mostram que mesmo sem imposição da empresa ou definição de novas metas, os profissionais passaram a adotar a IA por iniciativa própria. A mudança alterou a dinâmica do trabalho e a sensação dos colaboradores não foi de alívio — foi de cansaço e dificuldade de se desconectar.

Han diria que isso era esperado. Não pela tecnologia em si, mas pela lógica que a recebe.


O sujeito que se explora a si mesmo

Para Byung-Chul Han, saímos de uma sociedade disciplinar para uma sociedade de desempenho, onde não há um inimigo externo que nos oprime, mas um sistema que nos leva a crer que precisamos ser sempre produtivos, eficientes e bem-sucedidos. O resultado é um estado de autoexploração: trabalhamos mais do que nunca sem perceber que somos nossos próprios opressores.

Quando a inteligência artificial nas empresas chega a esse ambiente — onde a pressão por produtividade já estava instalada antes de qualquer tecnologia — ela não resolve o problema. Ela só o torna mais rápido.

Uma pesquisa do Upwork Research Institute com mais de 2.500 pessoas em quatro países mostrou que 77% dos funcionários afirmam que o uso da IA aumentou sua carga de trabalho, e 71% dos trabalhadores em tempo integral apresentam sinais de burnout, resultado de metas pouco claras e da pressão por resultados mais rápidos.

A tecnologia não criou a exaustão. Ela revelou que a exaustão já estava lá.


O que as organizações ainda não viram

Há um paradoxo silencioso no centro dessa transformação. Segundo o relatório The State of AI da McKinsey (2025), 88% das empresas já usam IA em pelo menos uma função de negócio. Mas apenas cerca de um terço passou da fase piloto para um uso em escala corporativa. A maioria das organizações adotou a ferramenta sem revisitar o modelo que a recebe.

Dados do Panorama do Bem-Estar Corporativo 2026, com cinco mil trabalhadores em dez países, mostram que 86% dos profissionais brasileiros relataram sintomas de burnout no último ano. A dependência de mídias digitais já supera o sedentarismo como fator de desgaste nas organizações.

O problema não é a inteligência artificial. O problema é acreditar que velocidade é o mesmo que presença — que fazer mais, mais rápido, substitui a qualidade do que acontece entre as pessoas dentro de uma organização.


O que a máquina não consegue fazer

A IA não hesita. Essa é sua força e, ao mesmo tempo, o que a torna insuficiente como modelo de trabalho humano.


Hesitar é reconhecer complexidade. É o momento em que alguém para, percebe que a situação exige mais do que uma resposta imediata e decide como agir com o que tem — incluindo o que não pode ser medido ou otimizado. É nesses momentos de pausa que decisões estratégicas de verdade são tomadas, que relações de confiança se constroem, que equipes encontram soluções que nenhum algoritmo anteciparia.

Pesquisas apontam que para além do conhecimento técnico, a IA demanda que as pessoas desenvolvam expertise interdisciplinar, habilidades interpessoais como criatividade e empatia, e um compromisso com práticas responsáveis — sugerindo que as habilidades humanas continuam sendo igualmente importantes.

As organizações que entenderem isso primeiro não vão apenas usar inteligência artificial nas empresas de forma mais eficiente. Vão saber o que proteger enquanto a velocidade aumenta.

Não é coincidência que as discussões mais honestas sobre o futuro do trabalho estejam chegando à mesma conclusão: o diferencial não vai estar na ferramenta que você usa, mas na capacidade de reunir pessoas que ainda sabem como pensar juntas. A pergunta que fica é: como sua organização está criando espaço para isso acontecer?

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