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LEGO Serious Play: o que é, como funciona e por que funciona

O LEGO® Serious Play® (LSP) é uma metodologia de facilitação organizacional desenvolvida em 1996 em parceria com o Instituto IMD da Suíça e a LEGO Company. Em sessões facilitadas, participantes constroem modelos tridimensionais com peças LEGO para tornar visíveis ideias abstratas, revelar perspectivas ocultas e construir compreensão compartilhada entre equipes. Em três décadas, o método deixou de ser experimento interno de uma empresa de brinquedos e virou campo acadêmico com substância: 268 estudos peer-reviewed mapeados entre 2015 e 2025, em pesquisadores de mais de 30 países, segundo mapeamento bibliométrico publicado no International Journal of Learning, Teaching and Educational Research em dezembro de 2025.


O que diferencia o LSP de qualquer outra dinâmica de grupo não é o LEGO. É o que acontece quando você retira da fala o monopólio do pensamento. Toda sessão parte de um pressuposto que parece simples e tem consequências profundas: para pensar melhor coletivamente, as pessoas precisam construir, não só falar. E o que a mão cria revela o que a fala convencional encobre.


A origem improvável: por que a LEGO precisava repensar como as pessoas pensam


Era 1996. A LEGO completava 64 anos como empresa e atravessava um momento de crise silenciosa. Kjeld Kirk Kristiansen, dono e CEO do grupo, tinha acabado de retornar de um afastamento por problemas de saúde e percebeu algo que a empresa ainda não nomeava: a globalização acelerada, a chegada da tecnologia nos lares e o crescimento do mercado de edutainment ameaçavam o núcleo do negócio — a venda de peças físicas de construção. O problema não era de produto. Era de pensamento estratégico.


Kristiansen convocou Johan Roos e Bart Victor, então professores do IMD Switzerland, para projetar algo diferente: um programa de estratégia para os 300 principais executivos do grupo. Roos e Victor, segundo artigo que os próprios autores publicaram em 2018 no International Journal of Management and Applied Research, estavam imersos em pesquisa sobre sistemas adaptativos complexos e teoria do conhecimento organizacional. A ideia que surgiu parecia improvável: usar a construção física como linguagem de estratégia.


O protótipo do LEGO Serious Play nasceu desse encontro entre a urgência de um empresário e o rigor de dois acadêmicos. Em 1999, Robert Rasmussen — então Diretor de P&D de Produtos Educacionais da LEGO — entrou no projeto para sistematizar o método. O LSP foi lançado oficialmente em 2002, e em 2010 a empresa tomou uma decisão que ningumém esperava: liberou o método sob licença Creative Commons. Qualquer pessoa no mundo poderia usar, adaptar e ensinar. O método cresceu porque foi solto.


O problema que o LSP resolve: por que a reunião convencional falha com a maioria das pessoas

Em qualquer reunião convencional de oito pessoas, um diagnóstico honesto revela o mesmo padrão. A reunião é um monólogo coletivo: uma ou duas pessoas falam, o resto escuta — quem prefere processar visualmente ou cinestesicamente não tem canal. É um ambiente construído para extrovertidos. É estruturalmente linear: uma ideia por vez, conexões entre temas são impossíveis de visualizar enquanto se conversa. E, acima de tudo, a reunião obedece à hierarquia: quem tem mais poder tem mais fala. Não por má vontade. Por design.


Michael Fearne, facilitador com histórico em KPMG, Ernst & Young e Google, resume o que o LSP veio corrigir com uma frase do próprio Johan Roos: “Change the process, change the outcome.” Mude o processo e o resultado muda — não porque as pessoas são diferentes, mas porque o formato libera o que o formato anterior bloqueava.


Na prática, uma sessão de

funciona em quatro movimentos. O facilitador apresenta uma questão — sobre estratégia, cultura, colaboração, identidade de time, o que o momento demandar. Cada participante constrói individualmente uma resposta em LEGO, usando metáforas em vez de representações literais. Em seguida, cada um apresenta o modelo e conta a história por trás dele. O grupo reflete coletivamente. O ciclo recomeça com uma nova questão.

O princípio estruturante é não-negociável: 100% de participação. Em toda reunião convencional, existe quem fala e quem assiste. No LSP, não existe essa distinção.

Na reunião convencional, quem tem mais poder tem mais fala. No LSP, cada um constrói o mesmo modelo. Não tem como silenciar um bloco de LEGO.

Pesquisa da Universidade de Bournemouth publicada no Journal of Further and Higher Education em 2026 documenta o efeito estrutural com precisão: o LSP “alcança a camada experiencial e afetiva onde desvantagem estrutural é sentida e processada”, habilitando capacidades como adaptabilidade, trabalho em equipe, criatividade, inovação e liderança.



A ciência por trás: o que acontece quando você pensa com as mãos


Seymour Papert, matemático do MIT, propôs nos anos 1980 a teoria do construcionismo: o melhor aprendizado acontece quando o aprendiz cria um objeto físico no mundo. O processo gera um loop: você tem conhecimento na mente, cria algo tangível, esse ato de criação faz você ver o tema de forma diferente, você interage com o objeto, outros interagem, essa interação muda seu modelo mental — e você então constrói algo diferente, com mais precisão. O LEGO Serious Play é construcionismo aplicado ao pensamento organizacional.


Por que as mãos especificamente? Frank Wilson, neurologista da Universidade da Califórnia, documentou em 1998 que atividade manual ativa processos cognitivos que a linguagem verbal sozinha não acessa. No mapa do córtex motor humano, as mãos são o maior canal físico de conexão com o cérebro. A formulação de Fearne é direta: as mãos são “another search engine for the brain” — outro motor de busca para o que já sabemos mas ainda não acessamos pela fala.


Pesquisadores da Universidade de Edinburgh, em estudo publicado na Frontiers in Sports and Active Living em 2025, acompanharam durante 31 dias um time esportivo de elite e documentaram que modelos mentais compartilhados — quando cultivados deliberadamente — reduzem a latência de decisão e aumentam a coordenação. A conexão improvável é real: o mecanismo que coordena times da Premier League é o mesmo que o LSP ativa em equipes executivas.


Uma revisão de neurobiologia publicada na Frontiers in Neuroscience em janeiro de 2026, pela Universidade de Gênova, cita explicitamente “intervenções baseadas em LEGO®” entre as abordagens com “demonstrated neurological and psychosocial benefits”.



Para que o LSP é usado hoje: dos times executivos à Premier League


O mapeamento bibliométrico do IJLTER registra com dados a transição: o LSP saiu de “prática orientada por profissionais” e tornou-se campo acadêmico interdisciplinar maduro. Em uma década, 268 estudos peer-reviewed, pesquisadores em mais de 30 países, 10 clusters temáticos identificados.

Na prática corporativa, o método é usado em organizações como KPMG, Ernst & Young e Google. Na academia, universidades como Bournemouth aplicam o LSP para desenvolver criatividade, risco calculado e adaptabilidade. E no esporte profissional, um estudo publicado na Leisure Studies em 2026 documentou a primeira aplicação formal do LSP com 18 atletas jovens de academia da Premier League inglesa — que usaram o método para visualizar trajetórias de carreira com “remarkable specificity”.


A amplitude não é acidente. É consequência de um método que resolve um problema humano anterior a qualquer contexto específico: como fazer com que todas as perspectivas em uma sala sejam genuinamente processadas — não apenas ouvidas por protocolo.



Quem pode facilitar LEGO Serious Play — e por que a LEGO abriu o método para o mundo


Em 2010, a LEGO Group fez algo incomum para uma empresa de seu porte: liberou o LEGO Serious Play sob licença Creative Commons Attribution Share Alike. Qualquer pessoa pode usar, adaptar e ensinar — desde que atribua a origem e mantenha a mesma licença para trabalhos derivados. A LEGO não mantém mais rede de parceiros certificados, não oferece certificação oficial e não controla quem facilita em que contexto.


A decisão explica parte do crescimento. O método saiu dos circuitos corporativos fechados e chegou a educadores independentes, pesquisadores, organizações públicas e consultorias de todos os portes. A comunidade global de facilitadores que emergiu desde então é parte da razão pela qual o campo acadêmico em torno do LSP se expandiu tão rapidamente.


Facilitar LSP com profundidade, no entanto, é uma competência construída. Formular a pergunta certa para cada momento, conduzir as sequências de construção individual e coletiva, saber quando o silêncio do modelo já diz o suficiente — tudo isso requer prática estruturada com orientação experiente.

Na BeLeader, aplicamos LEGO Serious Play a desafios organizacionais reais: desenvolvimento de times, definição estratégica, cultura e liderança.



Perguntas frequentes sobre LEGO Serious Play


O que é LEGO Serious Play, em resumo?

LEGO Serious Play (LSP) é uma metodologia de facilitação organizacional em que participantes constroem modelos com peças LEGO para expressar ideias, revelar perspectivas e construir entendimento compartilhado. Garante 100% de participação ativa e é respaldado por mais de 268 estudos peer-reviewed publicados entre 2015 e 2025.


LEGO Serious Play funciona para lideranças sênior?


Sim — e especialmente bem. O método equaliza a participação estruturalmente: como todos constroem o mesmo modelo, hierarquia de fala não determina quem é ouvido. Times sênior, onde dinâmicas de poder tendem a suprimir perspectivas relevantes, costumam ter resultados acima da média em sessões de LSP.


Quanto tempo dura uma sessão de LEGO Serious Play?


Sessões variam de 3 a 8 horas dependendo da complexidade do desafio e do número de participantes. Aplicações introdutórias cabem em meio período; sessões completas de definição estratégica ou trabalho de cultura normalmente ocupam um dia inteiro. Alguns treinamentos que envolvem comportamento e desenvolvimento de skills específicas também podem funcionar no modelo "jornada" e durar algumas sessões.


O LSP tem base científica sólida?


Sim. O método é fundamentado em construcionismo (Papert, MIT), na conexão mão-cérebro documentada por Frank Wilson (1998) e em pesquisa sobre modelos mentais compartilhados. Um mapeamento bibliométrico de 2025 identificou 268 estudos peer-reviewed sobre LSP em uma década.


Preciso de certificação para facilitar LEGO Serious Play?


Não existe certificação oficial da LEGO — o método está em domínio aberto sob Creative Commons desde 2010. Existem programas de formação conduzidos por facilitadores experientes. A qualidade da facilitação tem impacto direto nos resultados.



Conclusão


O LEGO Serious Play não é uma dinâmica criativa com LEGO. É um método com origem documentada numa crise real, fundamento neurológico verificável, campo acadêmico em expansão e uma decisão estratégica incomum de quem o criou — soltar o controle para que o método crescesse. O que ele resolve é anterior à pauta de qualquer reunião: quem participa de verdade e quem só está presente no mesmo espaço.


Três décadas depois de nascer numa sala de professores tentando ajudar uma empresa de brinquedos a pensar estratégia, o LSP chegou a hospitais, universidades, academias de futebol e salas de conselho. A pergunta que ele coloca não mudou.

O que estamos deixando de ver porque só pedimos para as pessoas falarem?

 
 
 

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